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Vamos, Tesouro, não se misture com essa gentalha…

Sobre batinas, irmãos e igrejas amarelas

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         Eu achava que todas as igrejas eram amarelas, como um acerto entre todas as igrejas do mundo. Um amarelo gasto. Branco sujo que parecia amarelo. Achei isso até os 14 anos, quando me mudei pra Chapada dos Guimarães.

         A igreja matriz do centro da cidade era azul. Um azul, dois, três azuis. Um pra cada pedaço da fachada; e confesso que no primeiro domingo eu só pude olhar e rir. Rir não só dos tons desconcertantes de azul, mas de ver minha certeza de infância sendo rapidamente derrubada.

         O velho padre, de dentro, me olhava e sorria. Aquele sorriso de padre de mesmo, de “Seja bem-vinda”, “Jesus te ama”, “Eu nunca fiz sexo na vida”. Não acho que ele tenha julgado meu riso, talvez soubesse que os azuis eram contra o Conselho das Igrejas Amarelas. Talvez soubesse que eu era nova na cidade.

         – De onde você é, menina? – perguntou o sorridente senhor de batida.

         – Daqui. – respondi olhando pros lados.

         – Nasceu aqui?

         – Não. Mudei com meus pais.

         – Morava onde?

         – Não era bem uma cidade, era uma fazenda no meio do nada, uma vila. Então… Não sei, desculpe.

         Minha mãe me olhava de um banco de madeira bem em frente ao altar, que era, grande. Grande é, de longe, a única palavra que tenho pra descrever. Talvez “grande pra cacete”. Ela usava um vestido longo, tinha as pernas cruzadas, o cabelo solto no pescoço, os olhos brilhando para mim.

         – Bom, seja bem-vinda, criança. Que a paz do senhor esteja com você.

         – E aí eu respondo “amém” ou é só na missa mesmo?

         – Poderia… – ele pôs as mãos atrás das costas.

         – Amém – sorri. Leia o resto deste post

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Sobre cartas, incensos e tapetes.

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           Abro a porta e paro na entrada. Olho em volta e vejo as contas na bancada, as revistas no sofá, os copos na mesa de centro, os pratos na pia.

          Entro sem fechar a porta.

          Deixo ela tão aberta e exposta quanto, agora, me sinto.

          Caminho percorrendo as paredes do corredor e entro no quarto verde demais. Os pingos de tinta no chão de piso branco me encaram e julgam minha pouca habilidade como pintora. Julgam minha pouca habilidade com tudo; minha total falta de habilidade.

          Tranco o quarto. Penso que alguma coisa em mim deve estar, também, fechada;  percebo que me aperto forte, os braços em volta do corpo, a roupa amassada.

          Deito na cama e fecho os olhos. Repito diversas em minha cabeça que tudo ficará bem, educando-a a seguir em frente com um forçado e choroso sorriso. Lembro que sou o tipo de mulher que não fica parada e levanto.

          A noite não é escura como de costume. Nuvens cinzas cobrem tudo que eu posso ver até que eu me incline na janela e veja, também, o vento batendo nas árvores na rua.

          Vejo alguém entrar pela porta, rápido. Passa sem dar boa noite ao porteiro, que olha para trás e fica olhando.

          Logo ouço as batidas na porta que, suponho, ainda está aberta. São três batidas lentas que não entregam o visitante. Ouço um suspiro forte e mais três batidas; dessa vez, mais rápidas.

          – Nina, posso entrar?

          – Entre. Leia o resto deste post