Sobre batinas, irmãos e igrejas amarelas

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         Eu achava que todas as igrejas eram amarelas, como um acerto entre todas as igrejas do mundo. Um amarelo gasto. Branco sujo que parecia amarelo. Achei isso até os 14 anos, quando me mudei pra Chapada dos Guimarães.

         A igreja matriz do centro da cidade era azul. Um azul, dois, três azuis. Um pra cada pedaço da fachada; e confesso que no primeiro domingo eu só pude olhar e rir. Rir não só dos tons desconcertantes de azul, mas de ver minha certeza de infância sendo rapidamente derrubada.

         O velho padre, de dentro, me olhava e sorria. Aquele sorriso de padre de mesmo, de “Seja bem-vinda”, “Jesus te ama”, “Eu nunca fiz sexo na vida”. Não acho que ele tenha julgado meu riso, talvez soubesse que os azuis eram contra o Conselho das Igrejas Amarelas. Talvez soubesse que eu era nova na cidade.

         – De onde você é, menina? – perguntou o sorridente senhor de batida.

         – Daqui. – respondi olhando pros lados.

         – Nasceu aqui?

         – Não. Mudei com meus pais.

         – Morava onde?

         – Não era bem uma cidade, era uma fazenda no meio do nada, uma vila. Então… Não sei, desculpe.

         Minha mãe me olhava de um banco de madeira bem em frente ao altar, que era, grande. Grande é, de longe, a única palavra que tenho pra descrever. Talvez “grande pra cacete”. Ela usava um vestido longo, tinha as pernas cruzadas, o cabelo solto no pescoço, os olhos brilhando para mim.

         – Bom, seja bem-vinda, criança. Que a paz do senhor esteja com você.

         – E aí eu respondo “amém” ou é só na missa mesmo?

         – Poderia… – ele pôs as mãos atrás das costas.

         – Amém – sorri.

         Fomos pra casa depois da missa e voltamos todo domingo, por 5 anos. Ainda ria dos azuis de vez em quando – na maioria das vezes ria porque não entendia porque tinha rido na vez anterior.

         Todo domingo. Coral. Missa. Teatro. Violino. Casa.

         Até que com uns 18 anos, eu e meus irmãos decidimos não ir mais. Não posso dizer que minha vida mudou, mas a sensação de que a semana tinha mais um dia não só existia, mas era um fato.

         O padre não sorria mais pra mim. Eu levava minha mãe até a Igreja, aparecia em comemorações e era só. Depois de um tempo isso parecia muito. Confesso que as coisas não pareciam mais fazer sentido.

         Me sentia culpada por pensar isso. Por desconsiderar tudo que ouvi desde pequena e discordar de algo que o mundo leva tão a sério.

         Numa segunda, depois de tanto tempo que nem lembro mais, fui até a igreja. Não estou certa se o sol se punha, mas lembro que, de algum lugar, via o sol. Parei da porta aberta só de um lado e sentei em um dos degraus.

         – Não sento porque não tenho mais idade pra isso.

         – Sentar? – olhei para ele, em pé, ao meu lado.

         – Não, criança, levantar – com a voz calma e meio rouca.

         – Queria falar com o senhor.

         – Faz bastante tempo que não vem se confessar.

         – Não acho que isso seja um confessão.

         – Então…?

         Levantei.

         – Lembro que você ria. Fábio e Júlio te olhavam envergonhados. Como se dissessem: Não conheço ela. – ele disse.

         – Meus irmãos nunca entenderam as coisas que me faziam feliz.

         – A igreja te fez feliz?

         – É sobre isso que queria conversar.

         – Claro.

         Entrei e esperei no mesmo banco em que costumava sentar. Pe. Germano abriu a porta esquerda, acenou algumas vezes e entrou.

         Sem batina ele parecia ainda mais velho. Talvez aqueles sete ou oito anos tenham pesado mais nas costas dele do que nas minhas. O cabelo branco ralo dos lados pesava e cobria as orelhas. Os óculos quebrado pendiam pra um lado; seu corpo magro, para o outro. O velho padre ainda andava rápido, arrastava os sapatos como se patinasse. Por fim, sentou no banco imediatamente do outro lado do corretor e esperou que eu começasse.

         – Acho que toda menina católica faz o que o que fiz. Eu tentei compensar o tempo que eu achei ter perdido aqui.

         – Se fosse assim não teríamos mulheres adultas católicas. Nem toda mulher faz o que você fez.

         – O senhor é inteligente. Quero dizer… Nunca esqueci as coisas que eu fiz aqui, mesmo que fossem meio confusas pra mim. Quando tudo acabava, desejávamos uma boa semana e eu tinha certeza que nos veríamos no domingo. Todos tinham um motivo pra estar ali. Todos tinham uma coisa ou duas pra aprender. Todos precisavam se ater a alguma coisa. E a igreja fazia isso.

         – Eu sempre pensei que, pelo menos pra certas coisas, você vinha porque queria.

         – Eu cantava no coral. Era divertido. Mas não pelo coral em si, entende? Eu confessava meu pecados, quando cheguei, pra um homem que eu nem conhecia, sem nem entender porque… Eram meus pecados. A questão é: eu sempre achei que não tinha me cegado pra o que religião tem de “ruim”, por assim dizer. Então, não se ofenda…

         – Menina, como dizem na cidade, quando alguém passa a vida inteira sem “dar uma”, não há mais nada que o ofenda. Então… Fique a vontade.

         – Nunca ouvi isso por aí – franzindo o cenho.

         – É melhor você começar esse boato, criança – riu – Mas, fale.

         – Todos tinham um motivo pra estar ali? Todos tinham uma coisa ou duas pra aprender? Todos precisavam se ater a alguma coisa? E a igreja… Era ela quem fazia isso?

         – Não sou “todos”. Na verdade, eu represento suas duvidas. Pra saber, acho que você precisaria perguntar a cada um que esteve alí. E toda essa gente seria o seu “todos”. É muita gente. Isso presumindo que todos eles tivessem se questionado sobre isso. E eu… Eu faço parte das perguntas e não das respostas.

         – Engraçado eu ter pensado que o senhor seria o único capaz de me entender.

         – Por quê?

         – Uma coisa que eu nunca deixei de pensar, foi que o senhor era uma boa pessoa… Um sábio. Se eu tinha que continuar acreditando em alguma coisa, que fosse nisso. Mas…

         – Não acredita mais? – virou seu rosto para mim pela primeira vez desde que sentou.

         – Não, pelo contrário. Continua sendo a única coisa em que acredito. Achei que vindo aqui o senhor pudesse…

         – “Fazer merda”?

         – Algo assim.

         – Nunca duvide.

         Ficamos ali até a hora da missa da noite. Em silêncio. Fui a primeira a levantar. Fui até ele e parei ao seu lado.

         – Tenho que ir.

         – Espero que tenha compensado o tempo que perdeu aqui e que apareça mais vezes.

         – Espero que me perdoe.

         – Não sou eu quem perdoa.

         – Meu arrependimento vai para o senhor. Não para Deus.

         – Vá, criança, e que Deus te abençoe.

         – Amém.

Mais uma vez chego em mais um post com a ajuda da Santa Alanis Morissette. Dessa vez, Forgiven é a música escolhida. Ouve aí. Entra na melodia, na história, em cada instrumento, em cada nota. 
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Uma resposta »

  1. Já disse q sou sua FÃ numero zero,né?! kkkk
    EVER!!!!

    Mas cadê o resto???
    Isso me angustia…Pq vc sempre me deixa corroendo de curiosidade? kkkkkkkkkk

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