Sobre cartas, incensos e tapetes.

Padrão
 

           Abro a porta e paro na entrada. Olho em volta e vejo as contas na bancada, as revistas no sofá, os copos na mesa de centro, os pratos na pia.

          Entro sem fechar a porta.

          Deixo ela tão aberta e exposta quanto, agora, me sinto.

          Caminho percorrendo as paredes do corredor e entro no quarto verde demais. Os pingos de tinta no chão de piso branco me encaram e julgam minha pouca habilidade como pintora. Julgam minha pouca habilidade com tudo; minha total falta de habilidade.

          Tranco o quarto. Penso que alguma coisa em mim deve estar, também, fechada;  percebo que me aperto forte, os braços em volta do corpo, a roupa amassada.

          Deito na cama e fecho os olhos. Repito diversas em minha cabeça que tudo ficará bem, educando-a a seguir em frente com um forçado e choroso sorriso. Lembro que sou o tipo de mulher que não fica parada e levanto.

          A noite não é escura como de costume. Nuvens cinzas cobrem tudo que eu posso ver até que eu me incline na janela e veja, também, o vento batendo nas árvores na rua.

          Vejo alguém entrar pela porta, rápido. Passa sem dar boa noite ao porteiro, que olha para trás e fica olhando.

          Logo ouço as batidas na porta que, suponho, ainda está aberta. São três batidas lentas que não entregam o visitante. Ouço um suspiro forte e mais três batidas; dessa vez, mais rápidas.

          – Nina, posso entrar?

          – Entre.

          – Na verdade, eu já estava dentro.

          – Então, porque perguntou?

          – Educação.

          – Muita, ouvi dizer – com um sorriso falso e seco que ele não vê, mas já ensaio.

          Nos encontramos na sala – que não é muito mais que uma mesa, um sofá, uma televisão e muita bagunça. Olho pra ele e estalo os dedos. Lembro do sorriso ensaiado e o testo mais uma vez – desperdiçando, diante de seus olhos, minha única carta. Ele franze a testa, eu abaixo a cabeça.

          – Porque deixou a porta aberta?

          – Pelo mesmo motivo que você deixa a sua fechada.

          – Segurança?

          – Não. Porque eu quis.

          – Bom… Vim aqui pra perguntar se esteve na minha casa… A porta estava aberta quando eu cheguei, algumas coisas fora do lugar; nada de mais. Imaginei que talvez soubesse da chave extra no tapete.

          – E sabia. Digo… Imaginei. – afasto as revistas e sento. Ele, ainda em pé.

          – Então foi você que entrou na casa?

          – Parece que sim.

          Olho pra ele, como que perguntando se queria sentar. Ele sorri; tomo como um não e ponho os pés no sofá. Penso em começar como uma palavra e parar, esperar que ele continue ou que vá embora. Penso em nem começar; em levantar e sair – deixando a porta, mais uma vez, aberta. Mas falo.

          – Eu fui até seu prédio, subi as escadas e achei que a chave pudesse estar embaixo do tapete. Entrei sem bater. Sem pedir…

          Sorrio e contorno os lábios com a língua.

          – Passei pelo corredor que você deve ter achado intacto e fui direto para o quarto. Podia jurar que sentia seu cheiro. Suor, perfume… – passei a mão pelo cabelo curto e recostei a cabeça na mão, apoiada no braço do sofá – Eu sei que não deveria estar lá sem… Permissão. Você me perdoaria se eu dissesse que dancei no seu chuveiro? Me perdoaria se tivesse deitado na sua cama? Se tivesse ficado a tarde toda?

          – Claro – curto.

          – Eu tirei a roupa…

          – Que ótimo…

          – Pus seu roupão, abri sua gaveta e achei sua colônia. Borrifei no ar, borrifei nas mãos e deixei em cima da cama. Fui até a sala, achei seus CDs e coloquei Joni pra tocar.

          – Nina, não precisar falar tudo. Chegue no final, onde você deixa ou não deixa a porta aberta…

          – Ian, no meu mundo, pra chegar no final, tem que passar pelo começo.

          – Certo – relutante, com as mãos no bolso.

          – Eu deveria ter saído mais cedo. Pensei, diversas vezes, que você pudesse chegar e não fosse gostar de me ver lá. Não deveria mesmo ter ficado tanto tempo.

          – Não teria me importado de te encontrar ali, só de roupão – abriu um sorriso largo.

          – Acho que eu teria. Bom, eu acendi um incenso na sala e outro no quarto. Te digo que a mistura com o perfume não foi boa. – olho o relógio – Tomei um banho. Saí do banheiro e vi uma carta em cima do travesseiro.

          Seu rosto mudou. Os lábios contraídos, despencaram. Os olhos se apertaram. Cabeça virada para o nada. Mãos inquietas puxando os fios soltos da calça jeans.

          Tirei os pés do sofá. Ele, por fim, sentou.

          – Claro que eu abri a carta. Nem cogitei a possibilidade de não lê-la, afinal, sou tão mulher quanto as outras mulheres com quem você se envolve.

          – Não há mais ninguém, Nina.

          – Não disse que tinha. A carta dizia: Oi, amor. Te amo tanto, amor. Me encontre à meia-noite.

          – Era antiga…

          – Você deixa uma carta antiga que você abriu só agora em cima da cama? – ele abre a boca e logo fecha – E não era minha letra. Pensei logo em sair. Afinal não era eu quem você deveria encontrar hoje, não é?

          – Você sabe que…

          – Então me perdoe, amor, se eu chorei no seu banheiro – interrompi –  Me perdoe, amor, pelo gosto salgado na sua cama. Me perdoe, amor, se eu chorei a tarde toda.

          – Eu que tenho que pedir desculpas. E eu posso explicar tudo.

          – Você tem noção de quantas vezes eu ouvi isso? Tem noção de que “eu posso explicar tudo” só não é a frase mais clichê do mundo porque tem pior…

          – “Não é isso que você está pensando?”

          – Não… “Eu te amo”. Então, me perdoe, amor, se essa conversa foi uma grande perda de tempo. Se todo esse relacionamento foi uma perda de tempo. Me perdoe se já são quase meia-noite. Me perdoe se não fui eu quem deixou a porra da sua porta aberta.

          Entrei no quarto e fechei a porta. Esperaria que ele saísse. Talvez ele ficasse e esperasse que eu saísse. E íamos ficar nisso. Como sempre, um esperando o outro.

          – Que ideia idiota, Ian, deixar a chave debaixo do tapete…

 
 
 
Alanis Morissette é, sem dúvida, uma grande cantora e mais que isso, uma ótima compositora. Eu já tinha ouvido o Jagged Little Pill inteiro, mas nunca tive paciência de ouvir a última faixa inteira. Nela – pra quem não sabia, como eu – tem Your House, e a música é linda. É essa música que inspira esse conto e que não sai da minha cabeça. Alguma músicas contam histórias, umas são evidentes que outras, umas são mais bonitas que outras, mas todas são arte.
Your House – Alanis Morissette AO VIVO
*texto inspirado na música Your House, de Alanis Morisette
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